... e a Beleza então será como a marca de um ferro quente na carne de nossa Quimera
9.9.11
de nomesteus
e por isso é ainda hoje o teu pre-nome que eu chamo à noite
um rosto rasgado pela luz
sorriso rouge num corte contornal
desfiladeiro dividindo a semelhança
e era com o fio no olhar que eu te chamava
(quando não havia palavra que nomeasse tua geografia)
- porque nada disso contém teu nome -
25.8.11
de Dedos heréticos
Os dedos : cirúrgicos : heréticos
Autópsia no rio Nilo:
um filete de saliva escorrendo aberta
pelos muros de berlin deitada em bruços
pelos mamilos duros outrora deus
- um gigolô dactilógrafo -
numa fração de mundo (o tempo) - meu relógio de sol - friccionado na coxa da mais antiga das putas
é ainda
possível
sentir...
( A n e l d e S a t u r n o )
qual saudades do sol
da pele liquefeita em sal
destronando a noite e refazendo o dia
não nela
na cona maestra
(REDESCOBRIR O GESTO)
instintuindo a dor como prazer oficial
Autópsia no rio Nilo:
um filete de saliva escorrendo aberta
pelos muros de berlin deitada em bruços
pelos mamilos duros outrora deus
- um gigolô dactilógrafo -
numa fração de mundo (o tempo) - meu relógio de sol - friccionado na coxa da mais antiga das putas
é ainda
possível
sentir...
( A n e l d e S a t u r n o )
qual saudades do sol
da pele liquefeita em sal
destronando a noite e refazendo o dia
não nela
na cona maestra
(REDESCOBRIR O GESTO)
instintuindo a dor como prazer oficial
21.7.11
de meias medidas
como medir...?
o afeto perdido entre os centímetros de um dragão preservativo...
a caridade estourando nas calças largas dos diretores de engenharia civil...
os fósseis denunciavam a burocracia do amor moderrno - doutorado em arqueologia.
será possível sobreviver a tudo isso?
como medir...?
a fé lubrificada pelos pensamentos positivos...
a possibilidade de ser feliz ante a satisfação segura de um gozo seguro e rápido...
a tranquilidade dos homens ainda reside numa relíquia alfabética - a bem-aventurança das doutoranças...
será possível não repudira a tudo isso?
e também - e porque não - continuar a observar o seus mundos,
sendo o meu
a última ilha desabitada
desta estranha terra
fadada ao fracasso....
Dizem: - é preciso ter bom-senso...
a medida do homem: Coragem
sempre ser e também às vezes estar.... dublar a sombra das vontades alheias e depois de tudo isso esvair-se em solidão, com o blend sanguíneo dos tempos escorrendo entre os dedos, e depois de tudo isso, ir além, espantar os pensamentos abundantes, tornar privado e confortável a fluència da língua, e misturar a tudo isso o desejo de não se tornar vendável... talvez só isso nos reste; talvez não haja mais nada...
rumores de que além daqui haja vida.
tremores que depois disso haja ainda vida.
certeza de que depois de tanto palavrear as coisas continuem sem verbo, sem transição, sinônimos, sem significado, sem substantivos, sem derivados, sem conjunções, sem nenhum tipo de ponto-final
o afeto perdido entre os centímetros de um dragão preservativo...
a caridade estourando nas calças largas dos diretores de engenharia civil...
os fósseis denunciavam a burocracia do amor moderrno - doutorado em arqueologia.
será possível sobreviver a tudo isso?
como medir...?
a fé lubrificada pelos pensamentos positivos...
a possibilidade de ser feliz ante a satisfação segura de um gozo seguro e rápido...
a tranquilidade dos homens ainda reside numa relíquia alfabética - a bem-aventurança das doutoranças...
será possível não repudira a tudo isso?
e também - e porque não - continuar a observar o seus mundos,
sendo o meu
a última ilha desabitada
desta estranha terra
fadada ao fracasso....
Dizem: - é preciso ter bom-senso...
a medida do homem: Coragem
sempre ser e também às vezes estar.... dublar a sombra das vontades alheias e depois de tudo isso esvair-se em solidão, com o blend sanguíneo dos tempos escorrendo entre os dedos, e depois de tudo isso, ir além, espantar os pensamentos abundantes, tornar privado e confortável a fluència da língua, e misturar a tudo isso o desejo de não se tornar vendável... talvez só isso nos reste; talvez não haja mais nada...
rumores de que além daqui haja vida.
tremores que depois disso haja ainda vida.
certeza de que depois de tanto palavrear as coisas continuem sem verbo, sem transição, sinônimos, sem significado, sem substantivos, sem derivados, sem conjunções, sem nenhum tipo de ponto-final
13.7.11
de viés
dos que estavam lá e puderam ver, lembro apenas de um, num relance, tinha o rosto de rinoceronte e os lábios de anêmona, mesmo nunca podendo confiar demais na minha memória, lembro dos olhos, que estavam lá e puderam ver, de relance talvez, seus dois olhos de leopardo, e esfregados pelos dedos de macaco, tinha o dorso como de um urso, talvez como de um rato, não lembro ao certo, apesar de confiar demais na minha memória, não soube distinguir a cor dos cabelos, era arriscado encará-lo, porém eu, dissimulado e muito discreto, olhava p'rum infinito acima de seus ombros, quase cego, desfocando o ponto de fuga, e contornando todos os detalhes de seu rosto, mas não lembro direito, não posso dizer que sei como ele era, nem se estava ou não olhando p'raquilo, ou se ele percebia que eu o observava, talvez por isso, talvez por não saber quem estava lá, e por ter perseguido esse compromisso da memória, não lembro do que vi, na verdade não lembro dos que estavam lá e puderam ver, lembro apenas de mim, que não lembra de nada.
3.7.11
17.6.11
de Dentro pra fora
sou um homem condenado. espetado de dentro pra fora por um pouco de conforto. os meus lábios estão rasgados por um prato de comida e um leito de inverno. esmagado, destroçado, meu coraçao derretido goela abaixo, meu espírito se arremessou nas pedras e paraplégico se arrasta pelo chão atrás de alguma sombra onde possa descansar e sonhar - mas que sonhos! um prato de comida e o traseiro arremessado nas cobertas da caridade? e com que ingratidão olham estes meus olhos pra tudo isso? olhos sedentos e pagãos! olhos assimétricos e notívagos, amarrados a toda paisagem de fora, a tudo que possui luz - não! não quero mais olhar a sombra!
correr não basta. é preciso fugir devagar. fugir! fugir! é preciso ir além, estar inacessível, intocável. mas que covarde eu sou! esta aventura de fugir não é para espiritos fracos. não sou dos que ficam e lutam. dos que crescem e transformam. não estou com os que amam a humanidade.
estou preso a tudo o que odeio! punido por tudo o que amo!
correr não basta. é preciso fugir devagar. fugir! fugir! é preciso ir além, estar inacessível, intocável. mas que covarde eu sou! esta aventura de fugir não é para espiritos fracos. não sou dos que ficam e lutam. dos que crescem e transformam. não estou com os que amam a humanidade.
estou preso a tudo o que odeio! punido por tudo o que amo!
8.6.11
de Canção dos Inflamados I
Eu sou o tumor do bem-estar
o cancrocristadegalomole nas constelações do pacifismo
a farpa aberta de uma unha esmaltada
o pulso do relógio sem batidas ao meios dia
a grande notícia curvada no tempo
um tíquete cuspido pra fora do espetáculo:
um chute no burocrata da birmânia comprando uma espanha cheia de espinhas
a paralisia infantil na adolescência trivial das ações na bolsa social
o benefício da inteligência na faca enferrujada
e sou também a enxaqueca o câncer e o hpv do progresso
sou o bônus
sou o lucro
sou a paz e sou a civilidade
sou a pomba sem cu
a merda sem cheiro
a felicidade transgênica
sou a medida da verdade e o sexo dos anjos explícitos
sou a religião a família e a propriedade
e sou também a corda amarrrada no pescoço do mundo
o único sobrevivente
o único assassino
e o último a pisar nesse chão
a garganta inflamada
os pés inflamados
sou a inflamação da ordem e da democracia
sou o começo da nova canção
a dívida do otimismo
o quilo do preço no pão
eu serei sempre a seta aguda do infinito
o mito íntimo da sua degradação.
o cancrocristadegalomole nas constelações do pacifismo
a farpa aberta de uma unha esmaltada
o pulso do relógio sem batidas ao meios dia
a grande notícia curvada no tempo
um tíquete cuspido pra fora do espetáculo:
um chute no burocrata da birmânia comprando uma espanha cheia de espinhas
a paralisia infantil na adolescência trivial das ações na bolsa social
o benefício da inteligência na faca enferrujada
e sou também a enxaqueca o câncer e o hpv do progresso
sou o bônus
sou o lucro
sou a paz e sou a civilidade
sou a pomba sem cu
a merda sem cheiro
a felicidade transgênica
sou a medida da verdade e o sexo dos anjos explícitos
sou a religião a família e a propriedade
e sou também a corda amarrrada no pescoço do mundo
o único sobrevivente
o único assassino
e o último a pisar nesse chão
a garganta inflamada
os pés inflamados
sou a inflamação da ordem e da democracia
sou o começo da nova canção
a dívida do otimismo
o quilo do preço no pão
eu serei sempre a seta aguda do infinito
o mito íntimo da sua degradação.
20.5.11
de P.erpetuum M.obile - (para)
...onde então eu rosnaria pra você, e ciciando mil neologismos insignificáveis no seu ouvido seria confundido com um outro. Aquele que ambulava com estrelas enferrujadas no bolso esquerdo, o sapato gasto e sujo, e a cara macia, porque acreditava que não haviam mais lastros de memória para se render. Antes disso você sabia o que éramos e por quais ruas deveríamos ter passado e em qual esquina teria sido necessário dizer adeus!, mas ainda assim preferimos recriar a primeira versão dos fatos num motocontínuo delicado... onde então eu rosnaria pra você?, e ciciando mil neologismos insignificáveis no seu ouvido seria confundido com um outro? Não com aquele que ambulava com estrelas enferrujadas no bolso direito, o sapato gasto e sujo, e a cara macia, porque acreditava que não haviam mais lastros de memória para se render. Antes disso você sabia o que éramos e por quais ruas não deveríamos ter passado e em qual esquina teria sido necessário dizer adeus?, mas ainda assim preferimos recriar a primeira versão dos fatos num motocontínuo delicado... onde então eu rosnarei pra você, e ciciando mil neologismos insignificáveis no seu ouvido serei confundido com um outro. Aquele que enferruja estrelas ambulantes no bolso esquerdo, de sapato gasto e sujo, e a cara macia, porque acredita que não há mais lastros de memória para se render. Depois disso você sabe o que seremos e por quais ruas deveremos ficar perambulando e em qual esquina será necessário dizer adeus!, mas ainda assim preferiremos recriar a primeira versão dos fatos num motocontínuo delicado...
13.5.11
de Céu memorável
houve um céu memorável
numa esquina rica em detalhes
cujos enfeites viravam defeitos
apóstolos ajoelhados
jogavam e apostavam
tudo o que não tinham
uvas, maçãs e manjedouras...
no cal a pele maciava estranhas figuras
lá longe
no oriente por enquanto exalam
o exílio essencial
de cada palavra
numa esquina rica em detalhes
cujos enfeites viravam defeitos
apóstolos ajoelhados
jogavam e apostavam
tudo o que não tinham
uvas, maçãs e manjedouras...
no cal a pele maciava estranhas figuras
Na estante uma cabeça de górgona tagarelando comigo. Finjo que não sei ou que não escuto. Sou Perseu aposentado de pernas pro ar. "Pégasus, cadê o osso? Pega! vai. Pega!" Os vizinhos reclamam do barulho. Do lado de fora milhares de batons fincados pelas frestas da janela, baleias sangrando no oceano, e os edifícios sombreando o sono dos desabrigados. Qualquer dia haverá um motivo pra se lamentar disso tudo. Não hoje. Não agora. Ainda há garrafas de cerveja na geladeira, e por enquanto isso basta. Prostitutas delivery. Tv a cabo. Código genético. Luta de classes.
lá longe
no oriente por enquanto exalam
o exílio essencial
de cada palavra
4.5.11
de Cultivos Gregos
sim!, porque se meu corpo fosse um poço
e alí florescesse com um adubo numinoso
uma essência quinta como flor de lótus
pura e improvável num jardim lamacento
(esperança de quem crê no mito do cultivo)
de repente uma lança
aguçada no meio do mundo
ou num agravo de luz
que cega
a penumbra de um pensamento borbulhando na entranha de um musgo universal
que divide a medida
e arrefece os ouvidos
à resposta pra uma pergunta infantil: crianças morrendo no bosque -
brincadeira inocente.
quando sentíamos sede
quando havia um lugar
enquanto houver tempo
- e o mundo prestes a desabar -
cantigas da infância e metros de solidão
fugido de uma verdade oblíqua onde tudo é reticente e mutável e adubavelmente persistente seja no tempo ou na pequena redoma de luz que são os teus olhos-agora
um fugitivo
e um lotófago
um ovo eclodido
e um grego com epifania:
- os hiroshimilhosbrancos! vejo-os no milho! -
...no cinema o casal tem o desfecho de sua própria representação -
"Francamente, querida,
eu não dou a mínima"
e nada termina sem um último suspiro...
e alí florescesse com um adubo numinoso
uma essência quinta como flor de lótus
pura e improvável num jardim lamacento
(esperança de quem crê no mito do cultivo)
de repente uma lança
aguçada no meio do mundo
ou num agravo de luz
que cega
a penumbra de um pensamento borbulhando na entranha de um musgo universal
que divide a medida
e arrefece os ouvidos
à resposta pra uma pergunta infantil: crianças morrendo no bosque -
brincadeira inocente.
quando sentíamos sede
quando havia um lugar
enquanto houver tempo
- e o mundo prestes a desabar -
cantigas da infância e metros de solidão
fugido de uma verdade oblíqua onde tudo é reticente e mutável e adubavelmente persistente seja no tempo ou na pequena redoma de luz que são os teus olhos-agora
um fugitivo
e um lotófago
um ovo eclodido
e um grego com epifania:
- os hiroshimilhosbrancos! vejo-os no milho! -
...no cinema o casal tem o desfecho de sua própria representação -
"Francamente, querida,
eu não dou a mínima"
e nada termina sem um último suspiro...
14.4.11
de Plano Sequência
Um minuto para fecharem os portões. Estou com as entradas da semana passada. Arrisco que ninguém notará. Mergulho no fundo de um precipício cheio de nomes e vozes e presenças irreconhecíveis, mas de alguma forma tudo é muito familiar. Uma flecha pontiaquíles me perfura no meio passo de um caminho que eu não escolhi. Não queria ver esse filme na semana passada. Nem desejo vê-lo agora. Se perceberem o bilhete antigo?, tenho dois, é possível que depois de uma desculposa desculpa distraída o segundo bilhete nem seja conferido. Desconfiemos da nossa própria vontade de vez em quando; para nossa própria segurança. Fica aqui uma pergunta: por que ver esse filme agora? Não possuo a resposta. O segundo bilhete: foi por ele que eu quase assisti a um filme que não queria, foi por ele que eu não assisti a filme nenhum, e é por ele que eu devo assistí-lo agora. Tudo muito simples. Se o filme for ruim... Eu sei que não vou gostar do filme. Bem, não preciso ficar até o fim. Afinal, estou só, e estou onde quero. Seria mais fácil e menos constrangedor se não precisasse fazer isso, mas há alguma coisa lá dentro daquela sala que precisa ser resolvida. Cânticos e feras lunares com luzesdiamantadas do céu perpendicularão um pequeno pedaço do destino, as três fiandeiras miraculosas do destino estarão lá, mijando-se umas nas outras, na tela do cinema e em nossas cabeças. Fechem essa maldita porta antes que eu entre nessa sala. Vagabundos ociosos e namoradinhas com freios de mão estarão lá também enfeitando o cenário desta gesta. Posso entrar, me sentar alí calmamente, e dormir durante o todo o filme. Não. Também isso seria perigoso demais. Ficarei aqui então corajosamente prestes a entrar, e esperarei honradamente que eles fechem os portões antes que eu consiga entrar. Mas eles não fecharão essa porta nunca! É preciso entrar. Sem mais rodeios. Um milhão de centopéias me conduzem a sala de projeção, de onde já posso ouvir os gritos desesperados dos que estão lá, imagino eles acorrentados em suas cadeiras engolindo quilos de hiroshimilhosbrancos socados à força goela abaixo pelos Cérberos-lanterninhas. O Cântico dos cânticos esfaqueando nossos ouvidos com pomadas rejuvenescedoras viscosamente besuntadas em nossas caras pálidas, os olhos estáticos buscando o ponto de fuga daquela renascença do inferno, baratas correndo pelas nossas gengivas, e ferozes rinocerontes de braços tortos socorrendo os velhos que ao menor clarão engolem suas dentaduras. Se houvesse uma única razão, apenas uma simples e tola que fosse, eu me deixaria ficar aqui tranquilamente com a tampa do crânio de minha cabeça entre as pernas esperando essas lesmas cósmicas sugarem meu cérebro e regurgitarem seus planos-sequência, sugando e regurgitando, sugando e regurgitando, sugando e regurgitando, até que finalmente terminasse a película, e então nós a guardaríamos dentro de uma dessas latas de metal de shernobyl e sairíamos com ela embaixo do braço abraçados a uma teta, que foi também sugada e regurgitada durante todo o filme, e no encontro com o ar do mundo, o ar plúmbeo e generoso dos carros, desceríamos a pé e descalços sob o sol desértico dos trópicos. Incandescentes e fritos, mas tranquilos e regurgitados, descansaríamos felizes esta noite em lençóis limpos abraçados a uma TetaGarbo e sonharíamos felizes o filme que realmente gostaríamos que tivesse sido filmado, o filme que realmente queríamos ter assistido. Mas... Não. Também isso seria perigoso demais.
para F.
eleva-me do teu sal tímido num salto
rio abaixo dos graus das latitudes e das expectativas
pr'um protúbero ramificado da tua saliva:
sê breve no teu discurso - leve na queda e no abraço
leve na despedida onde pende o silêncio prenhe de outras medidas
sê leve na gravidade semovente da tua sempre ida
- vela içada de um despetalar de pedras brancas -
multiplica a infinita imaginação do gesto quando a mão alcança
o infinito; um esboço fragrante - cheiro de que?
senão, quedarei velozmente no tempo
sim! leve como a queda de uma nau frágil
numa tormenta póstormentaprévia sempre atormentada
lançada no ar e recolhida pelo vento, pra depois
na hora do esquecimento; d'onde se pode recolher vieiras
se possa perder e se possa reencontrar
pra que se possa depois disso levar num salto
o gosto do teu sal tímido; e leve, tão leve quanto
o rosto de antes e o rosto de agora
corpo em mar aberto rebocado pelo tempo
tanto quanto o tempo leve; e esperar - garrafas ao mar!
que de lá sopre mais que vento.
rio abaixo dos graus das latitudes e das expectativas
pr'um protúbero ramificado da tua saliva:
sê breve no teu discurso - leve na queda e no abraço
leve na despedida onde pende o silêncio prenhe de outras medidas
sê leve na gravidade semovente da tua sempre ida
- vela içada de um despetalar de pedras brancas -
multiplica a infinita imaginação do gesto quando a mão alcança
o infinito; um esboço fragrante - cheiro de que?
senão, quedarei velozmente no tempo
sim! leve como a queda de uma nau frágil
numa tormenta póstormentaprévia sempre atormentada
lançada no ar e recolhida pelo vento, pra depois
na hora do esquecimento; d'onde se pode recolher vieiras
se possa perder e se possa reencontrar
pra que se possa depois disso levar num salto
o gosto do teu sal tímido; e leve, tão leve quanto
o rosto de antes e o rosto de agora
corpo em mar aberto rebocado pelo tempo
tanto quanto o tempo leve; e esperar - garrafas ao mar!
que de lá sopre mais que vento.
4.4.11
de Retratos e retratados
por um tempo o céu por cima da gente
cobrindo a medida e estabelecendo a moda
dos novos chapéus; véus de viúvas católicas,
e o pequeno colar de pérolas para uma nova amante
prometida nos vagos céus de porcos em forma de nuvens
e diamantes arrancados de lá enfeitando os salões da nobreza
deixados ou virados pelo avesso do tempo
e com a mais pura ostentação da riqueza de seus corpos
nús; colocados diante da minha paleta de cores
como se fossem minha obra inacabada, meu retrato crú
de Mademoiselle e Messier Fulano de Tal com peles brancas
e de suave modernidade; minha tinta, nossa tinta!
retrato e retratado, retrato e retratado, eis a ultra-tinta-humana:
minha lâmina derrama eternidade destes olhos
minhas falanges arqueiam a beleza de suas traquéias
e quem dirá que não
que não...
se a beleza de seus corpos está agora eternizada
na rouge canção de suas tragédias!
cobrindo a medida e estabelecendo a moda
dos novos chapéus; véus de viúvas católicas,
e o pequeno colar de pérolas para uma nova amante
prometida nos vagos céus de porcos em forma de nuvens
e diamantes arrancados de lá enfeitando os salões da nobreza
deixados ou virados pelo avesso do tempo
e com a mais pura ostentação da riqueza de seus corpos
nús; colocados diante da minha paleta de cores
como se fossem minha obra inacabada, meu retrato crú
de Mademoiselle e Messier Fulano de Tal com peles brancas
e de suave modernidade; minha tinta, nossa tinta!
retrato e retratado, retrato e retratado, eis a ultra-tinta-humana:
minha lâmina derrama eternidade destes olhos
minhas falanges arqueiam a beleza de suas traquéias
e quem dirá que não
que não...
se a beleza de seus corpos está agora eternizada
na rouge canção de suas tragédias!
27.3.11
de sonhos
primeiro dos sonhos
depois das promessas
depois de nós
depois de ti
e agora
desisto
de
m
i
m
d
a
q
u
i - n t e s
s
ê n
c i a
o primeiro dos sonhos: a matéria insonhável -
de espreitar da sombra agarrado a um poema irlandês
sem cafés cigarro ou sorte - nem silêncios vem
uma imitação desafinada do vôo de um pássaro
primeira violeta a arrebentar a aurora
depois das luas perdidas duas melodias
depois do depois, que inventar do porvir?
de ouvir canções perdidas também me perco
entre meias medidas e vozes imelodiáveis
num estranho rústico alçar de asas
som que persegue no encalço
o sonho - que foi o primeiro dos meus sons
depois das promessas
depois de nós
depois de ti
e agora
desisto
de
m
i
m
d
a
q
u
i - n t e s
s
ê n
c i a
o primeiro dos sonhos: a matéria insonhável -
de espreitar da sombra agarrado a um poema irlandês
sem cafés cigarro ou sorte - nem silêncios vem
uma imitação desafinada do vôo de um pássaro
primeira violeta a arrebentar a aurora
depois das luas perdidas duas melodias
depois do depois, que inventar do porvir?
de ouvir canções perdidas também me perco
entre meias medidas e vozes imelodiáveis
num estranho rústico alçar de asas
som que persegue no encalço
o sonho - que foi o primeiro dos meus sons
14.3.11
de Paris
café frio pra que nem cabem na cabeça de ninguém
conversas de arrancar fora as horas e os versos do chapéu
uma tragédia que se derrama no pão depois de trigo
ninguém mais lembrará da foice das guilhotinas
dos silêncios; bárbaros como só compete a nós
sermos; fome que conhece a nós seres de uma estratosfera mínima
enxugada da memória e repousada no tempo.
(tudo isso me lembra a Paris que não conheço)
cachorros borrachos deprimem a paisagem de setembro; e o que falamos no jardim
esta manhã, será necessário fingir que não,
recostados para a Avenida do Mal-Estar na Civilização, como tíquetes
de um espetáculo já assistido - Orfeu e Annabele -
devemos nos esquecer também num passeio urbano, deixar-se findar
num cimento castanho-escuro: legado de teus pés;
tudo isso porque não pudemos ser esquecidos pelo esquecimento
um pelo outro e pelo tempo que ainda temos...
conversas de arrancar fora as horas e os versos do chapéu
uma tragédia que se derrama no pão depois de trigo
ninguém mais lembrará da foice das guilhotinas
dos silêncios; bárbaros como só compete a nós
sermos; fome que conhece a nós seres de uma estratosfera mínima
enxugada da memória e repousada no tempo.
(tudo isso me lembra a Paris que não conheço)
cachorros borrachos deprimem a paisagem de setembro; e o que falamos no jardim
esta manhã, será necessário fingir que não,
recostados para a Avenida do Mal-Estar na Civilização, como tíquetes
de um espetáculo já assistido - Orfeu e Annabele -
devemos nos esquecer também num passeio urbano, deixar-se findar
num cimento castanho-escuro: legado de teus pés;
tudo isso porque não pudemos ser esquecidos pelo esquecimento
um pelo outro e pelo tempo que ainda temos...
8.3.11
Poema inacabado (continuar)
cansado, não possuo mais forças pra me livrar do que odeio: em mim - o rosto não é mais do que uma injúria
os pés estão trôpegos e sem possibilidades de conforto num leito prometido por uma idéia ingênua de felicidade...
alguém no ranço fácil da cortesia
que acalma, e talvez saiba mentir melhor que o sorriso de uma mulher melancólica
você
sussurrando
por trás das cortinas
- estou agredido pela lembrança -
a minha última notícia de pensamentos bons?
o salto por trás da razão pura
estávamos escondidos
eu
e
tu
acéfalos e impacientes, crendo que talvez somente inocentados pudéssemos
...continuar...
os pés estão trôpegos e sem possibilidades de conforto num leito prometido por uma idéia ingênua de felicidade...
alguém no ranço fácil da cortesia
que acalma, e talvez saiba mentir melhor que o sorriso de uma mulher melancólica
você
sussurrando
por trás das cortinas
- estou agredido pela lembrança -
a minha última notícia de pensamentos bons?
o salto por trás da razão pura
estávamos escondidos
eu
e
tu
acéfalos e impacientes, crendo que talvez somente inocentados pudéssemos
...continuar...
28.2.11
de Janelas escancaradas
agora mesmo, nesse fluir das pálpebras, aberto, os olhos, a janela traz o vento e o cheiro silencioso da noite, mesmo agora, é possível estar longe, não estar aqui e sentir os caricílios dos teus olhos bem próximos aos meus, como a namoradeira na janela de cotovelos gelados, sentindo saudades e o cheiro silencioso da noite, os olhos abertos, e é possível não estar aqui, agora mesmo, a janela aberta, fluir dos corpos, mesmo agora, enquanto caio...
25.2.11
de Zéfiro
justo porque quando ela liga o ventilador e a palavra não é de todos...
uma sensação espalhada pelo vento pelo silêncio e pela demora
mas há ainda uma equação a ser resolvida; que não é o cabresto do valente; nem o estribo do que sabe mais ou menos; nem uma sela que resolverá a alergia dos que tem à pelo...
é
talvez
uma soma de resultados
não calculados
entre a sombra a foice e o medo -
um corte de esgrima executado na ponta precisa do golpe:
um acerto fora da crença
daquele que mede o tipo depois do modelo:
quando assim se refaz o caminho
se meu
ou teu
ou se flor fora do tempo
deixa lá
assim o vento saberá o que foi feito do sopro...
uma sensação espalhada pelo vento pelo silêncio e pela demora
mas há ainda uma equação a ser resolvida; que não é o cabresto do valente; nem o estribo do que sabe mais ou menos; nem uma sela que resolverá a alergia dos que tem à pelo...
é
talvez
uma soma de resultados
não calculados
entre a sombra a foice e o medo -
um corte de esgrima executado na ponta precisa do golpe:
um acerto fora da crença
daquele que mede o tipo depois do modelo:
quando assim se refaz o caminho
se meu
ou teu
ou se flor fora do tempo
deixa lá
assim o vento saberá o que foi feito do sopro...
16.2.11
de Cento e Quarenta Caracteres
um onanista cego pontava as estrelas - QUAL O MEU NOME? - lembrou Narciso, Spica, Pollux, Antares... satis(fez) Flor Branca - via láctea.
9.2.11
de 'dopellGANGER'
Eu também percebi. Parece que os cachorros dessa vizinhança uivam como se estivessem clamando desesperadamente para que seu lado selvagem volte e os faça de novo senhores de si... Me desculpe, fiz de novo... é verdade. Às vezes eu exagero nas imagens. Talvez eles estejam apenas agitados demais hoje. Talvez eles saibam apenas coçar pulgas, não é mesmo?
6.2.11
de Primeira
uma fraca sensação de se sentir inseguro foi suficiente para penetrar profundamente entre os póros de nossas carícias.
havia uma lua entre a boca e o nosso safari discreto pelas penugens secretas de nossas escolhas foi dado a braçadas.
poderia dizer qualquer coisa que fizesse sentido para os olhos que lêem os ouvidos que em geral ouvem o que querem mas para a certeza era apenas um entretenimento feliz que a língua disparava para existir.
era triste e foi feito às pressas e ainda não acusava embriaguez.
era escura e fria.
depois de ferir a imaginação como um papel de rascunho.
o tempo foi reduzido à ressaca de nossas escolhas...
havia uma lua entre a boca e o nosso safari discreto pelas penugens secretas de nossas escolhas foi dado a braçadas.
poderia dizer qualquer coisa que fizesse sentido para os olhos que lêem os ouvidos que em geral ouvem o que querem mas para a certeza era apenas um entretenimento feliz que a língua disparava para existir.
era triste e foi feito às pressas e ainda não acusava embriaguez.
era escura e fria.
depois de ferir a imaginação como um papel de rascunho.
o tempo foi reduzido à ressaca de nossas escolhas...
29.1.11
de 'bloco-3'
Quadro IV O Sonho do Trabalhador
(um ônibus lotado. um homem depois de uma dia de trabalho dorme no caminho de volta pra casa)
- não... não... não. não. não! (desperta:sonha) Eu vou trabalhar mais, eu vou tra ba lhar mais... mas, eu; já trabalho tanto e... desculpa mas eu não posso. Sabe, eu tenho filhos, uma companheira, e uma vida pela frente pra - eu queria dizer: uma vida pela frente pra viver, mas acabei dizendo - pra trabalhar pra vocês, e... o querem que eu faça, ãh?! O que querem que eu faça? Querem que eu me arrebente nas máquinas de tanto trabalhar? Querem que eu produza mais quantas riquezas pra vocês por um punhado de ração? Ah, sim, eu sei que a ração vem melhorando de qualidade, afinal, tem até carne agora no cardápio, não é mesmo? Querem que eu pare? Querem que meus companheiros e eu, querem que agente pare? Eu paro. Se é isso que vocês querem, então está bem, é isso que vocês verão... mas, que isso...? não, não. Não vamos parar de trabalhar afinal, vocês precisam tanto de nós. Sabem que precisam de nós, não sabem? Mas, não, não é isso que eu queria dizer. O que eu disse, é que vamos parar de viver. Sim, isso mesmo que vocês ouviram. Vamos parar de se enganar, e achar que poderíamos ter alguma chance de uma vida decente como muitos levam por aí... Não. Estamos resignados a parar de viver, e trabalhar mais; todas as horas possíveis. Sabem, eu nem durmo mais direito mesmo. São as contas a pagar, o corpo massacrado pelo tempo que eu trabalho pra vocês, o tempo que eu levo da casa para o trabalho, e do trabalho pra casa, que nem é minha na verdade; portanto eu poderia morar no trabalho. É, no trabalho. Assim eu poderia gastar menos com moradia, vocês podiam diminuir meu salário, sem pudores, podem dizer que eu não preciso de tanto dinheiro... e tem mais! Eu vou produzir muito mais morando aqui! Posso trabalhar o dia todo sem parar! E mais ainda: Vou trazer minha família comigo, assim minha mulher pode me dar comida na boca enquanto eu trabalho e vocês não precisam se preocupar mais com aquela hora de trabalho parado. Eu não vou parar. Eu vou produzir como uma máquina pra vocês! Vou produzir o tempo todo! - (PRIMEIRA PARADA. APITO. o trabalhador desperta. LUZ BRANCA.)
Condutor - Primeira parada! aproveitem pra coçar as pulgas nesta primeira descarga de passageiros, porque na próxima próxima parada carregaremos este veículo com nova remessa de passageiros e não haverá espaço pra se coçarem!
(um ônibus lotado. um homem depois de uma dia de trabalho dorme no caminho de volta pra casa)
- não... não... não. não. não! (desperta:sonha) Eu vou trabalhar mais, eu vou tra ba lhar mais... mas, eu; já trabalho tanto e... desculpa mas eu não posso. Sabe, eu tenho filhos, uma companheira, e uma vida pela frente pra - eu queria dizer: uma vida pela frente pra viver, mas acabei dizendo - pra trabalhar pra vocês, e... o querem que eu faça, ãh?! O que querem que eu faça? Querem que eu me arrebente nas máquinas de tanto trabalhar? Querem que eu produza mais quantas riquezas pra vocês por um punhado de ração? Ah, sim, eu sei que a ração vem melhorando de qualidade, afinal, tem até carne agora no cardápio, não é mesmo? Querem que eu pare? Querem que meus companheiros e eu, querem que agente pare? Eu paro. Se é isso que vocês querem, então está bem, é isso que vocês verão... mas, que isso...? não, não. Não vamos parar de trabalhar afinal, vocês precisam tanto de nós. Sabem que precisam de nós, não sabem? Mas, não, não é isso que eu queria dizer. O que eu disse, é que vamos parar de viver. Sim, isso mesmo que vocês ouviram. Vamos parar de se enganar, e achar que poderíamos ter alguma chance de uma vida decente como muitos levam por aí... Não. Estamos resignados a parar de viver, e trabalhar mais; todas as horas possíveis. Sabem, eu nem durmo mais direito mesmo. São as contas a pagar, o corpo massacrado pelo tempo que eu trabalho pra vocês, o tempo que eu levo da casa para o trabalho, e do trabalho pra casa, que nem é minha na verdade; portanto eu poderia morar no trabalho. É, no trabalho. Assim eu poderia gastar menos com moradia, vocês podiam diminuir meu salário, sem pudores, podem dizer que eu não preciso de tanto dinheiro... e tem mais! Eu vou produzir muito mais morando aqui! Posso trabalhar o dia todo sem parar! E mais ainda: Vou trazer minha família comigo, assim minha mulher pode me dar comida na boca enquanto eu trabalho e vocês não precisam se preocupar mais com aquela hora de trabalho parado. Eu não vou parar. Eu vou produzir como uma máquina pra vocês! Vou produzir o tempo todo! - (PRIMEIRA PARADA. APITO. o trabalhador desperta. LUZ BRANCA.)
Condutor - Primeira parada! aproveitem pra coçar as pulgas nesta primeira descarga de passageiros, porque na próxima próxima parada carregaremos este veículo com nova remessa de passageiros e não haverá espaço pra se coçarem!
21.1.11
de Antes
reconcílios embalados pelas pálpebras flutuantes - antes asas de borboletas abertas nas horas do sono: dentro do atingido segredo do tempo as imagens pedestres entrecruzam suas réstias de antigas velas-luzentes, porque antes de todas as desditas, estava o sentimento guardado do verbo e do sentido, atrás do tempo e do cenário pingado em tintas leves, havia aquilo que era - a Matériaprima da própria Idéia...
7.12.10
de Adeus!
adeus! entre a idéia o corpo e o desejo
fica o eco desta palavra
sem nenhum tipo de acervo milenar de memórias infinitas
apenas o som indecifrável do susurro
no prelúdio desastroso da palavra
o osso se descolava do ar
o cabelo acrescido do cheiro da chuva
uma monotipia entre a palavra e o gesto
- fica! mesmo que na memória estrábica
e deixa de ser uma promessa romântica
domestica os teus dedos
nesta curva ansiosa do tempo
depois de já se estender pr'outro lugar
repetiremos daqui - adeus!
meu irrepetível motocontínuo...
fica o eco desta palavra
sem nenhum tipo de acervo milenar de memórias infinitas
apenas o som indecifrável do susurro
no prelúdio desastroso da palavra
o osso se descolava do ar
o cabelo acrescido do cheiro da chuva
uma monotipia entre a palavra e o gesto
- fica! mesmo que na memória estrábica
e deixa de ser uma promessa romântica
domestica os teus dedos
nesta curva ansiosa do tempo
depois de já se estender pr'outro lugar
repetiremos daqui - adeus!
meu irrepetível motocontínuo...
24.11.10
de Canhota
motoramante postmortem
eu não
sou martelo
inequívoco
mão martelo
permaneço amor
olho martelo
inoxidável
pulmão martelo
impulsivo
rin martelo
mar risível
coração martelo
roleta russa
pés martelo
transformargem
o beijo
minha foice
eu não
sou martelo
inequívoco
mão martelo
permaneço amor
olho martelo
inoxidável
pulmão martelo
impulsivo
rin martelo
mar risível
coração martelo
roleta russa
pés martelo
transformargem
o beijo
minha foice
16.11.10
de Pé
desde que o peso do passos
o pé de suas pequenas pontas
fataliza o desastre do caminho
persigo a leveza da lembrança
a vaga sensação de sentir
o peso dos seus pés pequenos
não mais senão a idéia
de caminhos que foram escolhas
dos pés que inventaram caminhos
paro por aqui
enterro caminhos
enraízo escolhas
o pé de suas pequenas pontas
fataliza o desastre do caminho
persigo a leveza da lembrança
a vaga sensação de sentir
o peso dos seus pés pequenos
não mais senão a idéia
de caminhos que foram escolhas
dos pés que inventaram caminhos
paro por aqui
enterro caminhos
enraízo escolhas
20.10.10
de Folha Presa
aaAprocura pppor sigggggnificados tristesssss
elevar-se às escolhas!
decompor
canções
da infância
tornar-se
fatalmente
sereno
enervar
a vida
por
via de regra
recontar
progressivamente
os
amores
rir-se no tombo de plauto:
- variação trágica do ego -
as ruas de babel já travaram línguas com este papel
agora
recomponho-me nas minhas
próprias contradições...
elevar-se às escolhas!
decompor
canções
da infância
tornar-se
fatalmente
sereno
enervar
a vida
por
via de regra
recontar
progressivamente
os
amores
rir-se no tombo de plauto:
- variação trágica do ego -
as ruas de babel já travaram línguas com este papel
agora
recomponho-me nas minhas
próprias contradições...
16.10.10
(ÓPERA) de 'Calles'
tocadores de pífano soltam seus cheiros pelas calçadas e de sapatos descalços pífam sonhos, libertam o som do silêncio, esvaziam a lembrança e recolhem moedinhas em troca de miúdos gemidos - como se fossem preferíveis alçam-se daqui como bolhas e escorrem pelos olhos dos que se estreitam pelas paredes - desafinando a todos que passam... tocadores de pífano! pifemos! o ar já sabotou o silêncio podemos agora saborear o ar amargo-lírico dos oniromânticos...
15.10.10
de Papel Antigo
No lombo do boi
- a gafe:
método desfazendo curva
verso ruminando a forma
dia e noite como já dizia o ditado
"formosura em pé descalço
alça a fôrma aperta o laço"
- a gafe:
método desfazendo curva
verso ruminando a forma
dia e noite como já dizia o ditado
"formosura em pé descalço
alça a fôrma aperta o laço"
9.10.10
de 'Conto para um Palco Italiano'
(um casal sentado num balanço de crianças)
ELE- Era uma noite de abril; estava com um cachecol vermelho, e uma bota preta que ela levaria para consertar um zíper na semana passada. Seu rosto estava um tanto vermelho pelo vinho que tínhamos acabado de abrir; o seu pescoço se mostrava timidamente sobre os cabelos a altura dos ombros.
ELA- Pois é! Recebi o convite ontem...
ELE- Ela me olhava com um sorriso hesitante.
ELA- Eu recusei.
ELE- Ela desviou os olhos... Que absurdo! Há um ano que você espera por essa oportunidade! Vai telefonar hoje mesmo!
ELA- Não. Por favor, não posso aceitar. Teria que ficar por lá pelo menos um ano; na verdade, teria que arranjar a minha vida por lá... Não quero.
ELE- Lembra do nosso pacto: nossa história não deve fazer você perder nenhuma oportunidade. Vá, pelo menos por um ano. Pensa bem, você tem tanta vontade de viajar!
ELA- Um ano longe de você!
ELE- A gente volta a se encontrar.
ELA- Ele me apertou contra o peito. Ele sabia. Eu não desejava mais viagens, nem perfumes, nada além dele. Eu tinha tecido, durante aquele ano, e com a cumplicidade dele, aqueles laços que me ligavam a ele...
ELE- Como poderia ela, de repente, rompê-los?
ELA- Está desapontado? Teria sido uma boa maneira de se livrar de mim?
ELE- Ela sorria com tristeza... Não tenho a menor vontade de ver você longe de mim, mas me sinto mal por fazer você perder uma oportunidade dessas.
ELA- O coração dele fica constrangido quando precisa ser amável com alguém que sabe que o ama.
ELE- Além de mim ela nada mais amava no mundo. O resto do universo perdera a seus olhos todo o colorido. E eu só lhe concedia uma pálida ternura. Eu a enclausurava num amor solitário.
EU- Por que você não casa com ela?
ELE- Não a amo de verdade.
EU- então por que penetrou tão fundo na vida dela?
ELE- Foi ela quem quis. Disse que a ela cabia escolher, que é livre.
ELA- Se eu pelo menos tivesse certeza que você realmente me quer quando estou do seu lado, que não fica de porre quando sempre te procuro.
ELE- Porque diz isso? eu ficaria como uma alma penada se você me deixasse. Eu só me sinto culpado, só isso.
ELA- Ele me apertou contra o peito, me beijou os cabelos, o rosto, a boca. Me beijou com uma espécie de paixão.
ELE- Eu procurei as palavras mais ternas; e não compreendia por que motivo eu me envergonhava de dizer algumas. Ela estava linda. Sabe?
ELA- Nessa hora seus olhos brilhavam como uma ameaça de felicidade...
ELE- Nunca imaginei que eu poderia me apegar tanto assim a você. Estou ridiculamente feliz por você ter ficado comigo.
ELA- Mesmo?
ELE- Mesmo.
EU- Sim, é muito bonito deixar as pessoas livres...
ELE- Sempre pensei desse modo.
EU- Mas ainda assim nunca deixamos de ser responsáveis.
ELE- Eu revia o rosto corado, os olhos decididos. É você quem deve escolher. Mas que escolha foi reservada pra ela? ela poderia escolher que eu a amasse? que eu não existisse? que não tivéssemos nos conhecido nunca? Deixá-la livre era ainda decidir por ela... O que eu posso fazer? Devo mentir?
EU- Ah... eu não posso te dar conselhos...
(longo silêncio. B.O.)
ELE- Era uma noite de abril; estava com um cachecol vermelho, e uma bota preta que ela levaria para consertar um zíper na semana passada. Seu rosto estava um tanto vermelho pelo vinho que tínhamos acabado de abrir; o seu pescoço se mostrava timidamente sobre os cabelos a altura dos ombros.
ELA- Pois é! Recebi o convite ontem...
ELE- Ela me olhava com um sorriso hesitante.
ELA- Eu recusei.
ELE- Ela desviou os olhos... Que absurdo! Há um ano que você espera por essa oportunidade! Vai telefonar hoje mesmo!
ELA- Não. Por favor, não posso aceitar. Teria que ficar por lá pelo menos um ano; na verdade, teria que arranjar a minha vida por lá... Não quero.
ELE- Lembra do nosso pacto: nossa história não deve fazer você perder nenhuma oportunidade. Vá, pelo menos por um ano. Pensa bem, você tem tanta vontade de viajar!
ELA- Um ano longe de você!
ELE- A gente volta a se encontrar.
ELA- Ele me apertou contra o peito. Ele sabia. Eu não desejava mais viagens, nem perfumes, nada além dele. Eu tinha tecido, durante aquele ano, e com a cumplicidade dele, aqueles laços que me ligavam a ele...
ELE- Como poderia ela, de repente, rompê-los?
ELA- Está desapontado? Teria sido uma boa maneira de se livrar de mim?
ELE- Ela sorria com tristeza... Não tenho a menor vontade de ver você longe de mim, mas me sinto mal por fazer você perder uma oportunidade dessas.
ELA- O coração dele fica constrangido quando precisa ser amável com alguém que sabe que o ama.
ELE- Além de mim ela nada mais amava no mundo. O resto do universo perdera a seus olhos todo o colorido. E eu só lhe concedia uma pálida ternura. Eu a enclausurava num amor solitário.
EU- Por que você não casa com ela?
ELE- Não a amo de verdade.
EU- então por que penetrou tão fundo na vida dela?
ELE- Foi ela quem quis. Disse que a ela cabia escolher, que é livre.
ELA- Se eu pelo menos tivesse certeza que você realmente me quer quando estou do seu lado, que não fica de porre quando sempre te procuro.
ELE- Porque diz isso? eu ficaria como uma alma penada se você me deixasse. Eu só me sinto culpado, só isso.
ELA- Ele me apertou contra o peito, me beijou os cabelos, o rosto, a boca. Me beijou com uma espécie de paixão.
ELE- Eu procurei as palavras mais ternas; e não compreendia por que motivo eu me envergonhava de dizer algumas. Ela estava linda. Sabe?
ELA- Nessa hora seus olhos brilhavam como uma ameaça de felicidade...
ELE- Nunca imaginei que eu poderia me apegar tanto assim a você. Estou ridiculamente feliz por você ter ficado comigo.
ELA- Mesmo?
ELE- Mesmo.
EU- Sim, é muito bonito deixar as pessoas livres...
ELE- Sempre pensei desse modo.
EU- Mas ainda assim nunca deixamos de ser responsáveis.
ELE- Eu revia o rosto corado, os olhos decididos. É você quem deve escolher. Mas que escolha foi reservada pra ela? ela poderia escolher que eu a amasse? que eu não existisse? que não tivéssemos nos conhecido nunca? Deixá-la livre era ainda decidir por ela... O que eu posso fazer? Devo mentir?
EU- Ah... eu não posso te dar conselhos...
(longo silêncio. B.O.)
8.10.10
de Alcólicas...
Bebo à lembrança... Ah, Modigliani... Que minha bebida dê vida aos títeres, que meus goles afoguem estes ventrílocos passivos... Se minha goela fosse a fonte de um novo dilúvio... A bebida não cessa nem inicia dores e alegrias... elas apenas dormem... Bebo ao esquecimento!... Ah, Anabelle... O oriente dos exílios das filosofias e da bem-aventurança... essas coisas não cabem no meu sangue... Não sou das cimitarras... tenho o grito solto e roco... nem sou vela no mar; sem conquistas sem o merecimento das promessas antigas... minha deriva é em terra de língua estrangeira... já que o mito é morto desde o nosso nascimento... Uma probabilidade do porvir... O que inventar do depois? Depois do depois... um rancor e um soco não nos traduz...
6.10.10
de Ônibus
Torpe? Que palavra é essa que não assusta mais? que não contém torpeza... Que psicanálise é essa que compreende sempre tão bem o vazio das coisas? Que poética é essa que ao não heroicizar a vileza torpe se torna descontente e vazia por não saber mais como virtualizar uma escolha simples e mal-medida..? A oposição afirma o seu oposto: e proposta a ser fato, não contente, nega a afirmação feita pelo seu próprio contrário... O que pensa você ao pensar assim? Sim! porque é assim que costuma pensar... Pensa que entende e sabe a contradição posta à mesa? Jantemos portanto pois temos fome; e se há o que comer... A fome sim é virtude! A falta de comida torpeza, das mais graves - sem discussão. Você passa fome?
3.10.10
de Celular
procuremos então aportarnos. basta de dar braçadas para não se sufocar no ar da atmosfera. ME APONTOU UMA FACA NO PEITO, SABIA? procuremos nos abster das lembranças boas e das ruins. MAS AQUI E AGORA - NÃO SER O QUE SOU E SER O QUE DEVERIA? me lançarei então a qualquer verdade desde que ela sustente todo o peso do mundo que me pesa nas costas... por ter sido o que sou fui ludibriado como o tolo e bondoso Atlas. TAMBÉM EU NÃO CONTROLO CERTAS COISAS - TAMBÉM NÃO QUERIA QUE ELAS VOLTASSEM. poderei buscar nos contornos mais sutis da superfície terrestre os nomes perdidos das coisas e tentar compreendê-los se isso me valesse uma vida... DAS DUAS METADES DA LEMBRANÇA PARECE QUE FIQUEI COM A MELHOR PARTE. A QUE DÓI PRA SEMPRE. A QUE NÃO CICATRIZA NUNCA. mas é preferível aportar. é mais seguro seguir em frente daqui parado esperando as estrelas morrerem, o sol secar, o céu se dissolver, o mundo murchar como uma velha maçã podre... apenas olhos móveis para despalpebrar-se da fuligem dos homens...eu não sou uma máquina.
2.10.10
de 'Suíte ZERO'
jazigos silenciosos já buscavam razões para seus mortos
numa monstruosidade numérica onde dezenas eram fontes de águas largas - abril - portas amoleceram como gengivas no frio por onde cada dedo convergia estados em modificações e prisões por abnegações por onde cada olho por si espargiu e ouvindo atravessar o próprio sangue fora dalí coube-me saber onde estava o homem que eram unhas cabelos e dentes todos dalí? o que por fim eram flores eram flores e são flores e ainda estão mas onde estavam as andrômedas? mil arcas destampadas pra que? se ainda sou o único que lembra das andrômedas e de suas têmporas com quem lembrarei o tempo de antes depois? a quem pedirei a conta do sangue das lembranças?
o cárcere imediato das portas que se abrem tendas de senhores e escravos de línguas e nações prometidas pelas gerações a fornicar perpetuidades e abundar-nos de nossas próprias abjeções à isso tudo caberia acostumar-se as coisas que se quebram dentro e fora dos tímpanos
de Janelas
Da janela da pra ver a prostituta penteando os cabelos...
Dalí dá pra ver o võo dos pássaros... levados pelas correntes de ar... as pombas, andorinhas, bandos romanos de navegantes livres de diversas religiões e etnias... como se diz entre os lotófagos:
crocita! crocita! a janela é tão propiciadora de manás como de desertos e não sejamos reis apenas por animosidades mas não deixemos de crocitar a plenos pulmões! longamente se possível e voltar tão bem quanto partiu
Dalí dá pra ver o võo dos pássaros... levados pelas correntes de ar... as pombas, andorinhas, bandos romanos de navegantes livres de diversas religiões e etnias... como se diz entre os lotófagos:
crocita! crocita! a janela é tão propiciadora de manás como de desertos e não sejamos reis apenas por animosidades mas não deixemos de crocitar a plenos pulmões! longamente se possível e voltar tão bem quanto partiu
29.9.10
para Anabelle
.
seja irrepetível
e no entanto
diga:
– pausa prolongada sob Cronus axial –
com o mesmo descuido
de um primeiro alçar de asas
resposta descuidada
a caminho
seja irrepetível
e no entanto...
se são margaridas que esperam atentas ou mesmo disfarçam sem a mesma preocupação
seja irrepetível
incorrigir-se depois de despir
desvio de mão - (devia não)
no entanto
toque-me! (devia não)
e não haverá (devia não)
qualquer
repetição (devia não)
.
.
!
seja irrepetível
e no entanto
diga:
– pausa prolongada sob Cronus axial –
com o mesmo descuido
de um primeiro alçar de asas
resposta descuidada
a caminho
seja irrepetível
e no entanto...
se são margaridas que esperam atentas ou mesmo disfarçam sem a mesma preocupação
seja irrepetível
incorrigir-se depois de despir
desvio de mão - (devia não)
no entanto
toque-me! (devia não)
e não haverá (devia não)
qualquer
repetição (devia não)
.
.
!
27.9.10
de 'Proclamation sans PRETÉNTION'
Perdoe-me por ser teu...
chorosamente debruçado
em tuas malhas amorosas
soluçando o calor da minha bílis
maculando teu seio carinhoso
com as farpas imaginárias
de minhas imprecações odiosas
ao mundo!
Teu amor é uma sacra alcova
e eu, um afortunado hóspede
trago mal-agradecido
iníquos demônios desabrigados
para o teu leito de infinitas delícias.
E não me odeias por isso.
Teu peito é feito
da mais sutil das matéria bondosas
e não se arriscam teus lábios
a misturar-se às minhas injurias
cheias de som e fúria.
Meu vicio indolente é feito
graça no teu corpo fértil de candura
Me amas - E não me perdoas por isso...
chorosamente debruçado
em tuas malhas amorosas
soluçando o calor da minha bílis
maculando teu seio carinhoso
com as farpas imaginárias
de minhas imprecações odiosas
ao mundo!
Teu amor é uma sacra alcova
e eu, um afortunado hóspede
trago mal-agradecido
iníquos demônios desabrigados
para o teu leito de infinitas delícias.
E não me odeias por isso.
Teu peito é feito
da mais sutil das matéria bondosas
e não se arriscam teus lábios
a misturar-se às minhas injurias
cheias de som e fúria.
Meu vicio indolente é feito
graça no teu corpo fértil de candura
Me amas - E não me perdoas por isso...
de Alimentos Prescindíveis
quedantes pós-tudo! que prefiram lançar-se de bunda em largas cadeiras e esperramar seus cérebros cheios de verdade enquanto eu a frente do alto-comando dos vermes mastigadores de paradigmas, delicadamente repousarei minhas pequenas tormentas sobre vossos apoiadores de chapéu e jantarei fartamente todas as midongas postulares de sua imaginação. Comedores de sonhos! a postos! estaremos a calcular a medida que refaz o homem em cada fase de suas escolhas: é preciso que existam antes de tudo! e agora deixa-nos observar com a decadência de nosso apetite o que nos resta afinal... ali: o homem-ferramenta, que pensa, pobre coitado!, de tudo poder aparamentar-se como se pudesse se apropriar da vida através de notas pedagógicas!... mais adiante, vejam: o homem-côncavo, o guru macio dos novos tempos, seus olhos são como bolhas de sabão, e a vida para ele é verdadeiramente aquilo que deveria ser, ele prega compassivamente seus arco-íris sobre a felicidade dos homens, e as crianças quase sempre se riem dele, 'está nu'!... ele usa as roupas novas do imperador... e alí, risivelmente ao lado das massas: o homem-neutro, vivido pela própria circunstância, optado por não escolher, escolhe a não-escolha, omite-se dentro de um objetivo claro e alcançável, encontra-se de mãos atadas e inveja o cão que ainda pode coçar as próprias pulgas... Perceberam? possuem a carne tão dura que os tornam indigestos pra nós...
25.9.10
de Manhã
morredores que morram! sobremos apenas para poder apreciar minutos confundantes ou sem isto nem sobreviveria o tempo que se leva pra crer na decomposição e no antepasto no lote e na razão na coluna e na recém-vida daquela que não nos pede mas nos notifica... ao mal entendedor o dicionário de sinônimos!
24.9.10
de 'Caderno Espanhol'
Anabelle dizia que não conseguiria imaginar uma vida sem mim. Imaginava que não conseguiria. Talvez por isso não tenha voltado. Talvez porque pensasse que eu já não estava mais aqui, e talvez não estivesse mesmo... O estilhaço da vidraça continua alí, intacto. Mesmo ausente fui capaz de empurrá-la janela abaixo. Lembro da primeira vez que isso aconteceu. Anabelle entrou cambaleante pela porta e seu sangue vermelho brotava de seu umbigo e ia escorrendo pelas suas pernas brancas, seus lábios estavam rubros e se alongavam pelas paredes da sala. Sorria e me perguntava sobre sua guirlanda de papoulas, os tickets da ópera... Orfeu e Anabelle. De seus joelhos gotejavam seivas de melancolia dura e os seios flutuavam numa bacia de leite... Percebi hoje o quão criminoso é o amor. Amanhã ainda chove. E todo o esgoto do céu continuará despejando lágrimas criminosas sobre mim, gotas de chumbo derretido cujo peso me é insuportável. Decido parecer menos vadio nos próximos dias...
23.9.10
adiós
I
Ouço o portão se fechando. ele se curva para me olhar mas quando olho pra trás ele já se foi. mantenho os olhos fixos nela. na parede onde dependuramos nossas lembranças. ele continuará ali parado olhando seu próprio rosto envelhecer. tudo ali continua intacto. examino atento dentro de mim e nada falta. a ausência ocupa o seu lugar. acredito que existem certas variações de ordem aleatórias ao pensamento. uma delas é o tempo. o instante presente será memória daqui a pouco. mas o ar e as coisas imóveis no lugar onde as colocamos estão ainda como estarão. e isso não muda em nada a ordem em que aconteceram. sua presença é sentida por isso e pela própria ausência que ocupa o seu lugar. e sorrisos. não mudam paisagens? o sorriso é outra coisa que não muda. alí na parede. entre a pedra e o meu rosto. sentimento de natureza morta. não importa lembrar. estará ali sorrindo pra mim daqui a pouco mesmo sem poder lembrar o que sentia quando sorriu.esta hora é imortal. mesmo que ninguém se lembre dela. desde o momento em que aconteceu terá existido para sempre. mesmo que ninguém se lembre ela viveu na memória imortal das coisas.
nem uma música. nem um latido. nem um ronco de motor. faz dois mil anos que estou aqui e este silêncio nunca me pareceu tão triste. não quis acordá-lo. dormia tão gostoso. se tiver que ficar aqui nesta imensidão emudecida será necessário enlouquecer – para minha própria segurança. nenhum ruído para me dizer que as coisas serão daqui pra frente como sempre foram. é porque o tempo trai. a lembrança: o som do portão que já se fechou. eu preciso escutá-lo a todo instante. a ferrugem espremendo o ferro. os passos mastigando as pedras. e a voz dizendo que foi só lembrança ruim. ele precisa arrumar o portão que está velho. a lembrança que trai o tempo. agora lembro. lembro do portão se fechando. lembro do sorriso. da foto. a lembrança trai. o som enferrujado da despedida. eu não o culpo. despedir dói. ele não vai lembrar. mas vai doer. vejo da janela que o portão está fechado como sempre esteve. nada mudou. mas o silêncio lembra ao tempo que a lembrança trai. dói. não sei se já disse antes. mas algo em mim dói.
II
A idéia de dizer adeus a alguém é de quase morte. ele precisará viver. parte de você deixa de estar presente. ele mal sentirá minha ausência. por isso prefiro não dizer. prefiro pensar que acabaram as maçãs. pronto. logo estará aqui. ela e um cesto cheio delas. vermelhas como nos contos das fadas. como nos contos em que há uma cesta cheia de memórias e de maçãs. mas não. a memória em poucos segundos terá de reinventar quem sou. pois há uma caixa imensa de maçãs na dispensa que me obriga a não preferir pensamentos sobre contos e cestos. não há fadas na dispensa. e na verdade agora mesmo penso que o que fui com tanta convicção foi só uma invenção. deixarei para trás os restos. as ruinas do tempo continuarão se degradando com o passar dos dias. e aqui eu permaneço pra sempre. traindo a memória e sendo traído por ela. na medida em que envelheço o tempo a lembrança escurece. é noite. a parede permanece pregada na memória e as fotos nela penduradas são as mesmas e continuam sorrindo. ainda não lembro o motivo. mas não importa. elas continuarão sorrindo alí amanhã pela manhã. boa noite. e lá será mais fácil não lembrar de hoje.III
A distância dos corpos faz com que a idéia de que alguém de carne e osso tenha estado aqui deixe de ter existido algum dia. hoje a cama parece maior. sinto falta de alguma coisa mas não consigo entender o que é. a lembrança acusa qualquer coisa ligada a imaginação. ele teve um sonho agitado. sonhou ruim. a lembrança pressupõe alguma coisa perdida no passado. a imaginação não lembra o que é. o tempo se existe pode esquecer de lembrar. neste caso a imaginação trai a lembrança. e eu percebo agora o que é das coisas sem fim. percebo que esqueci. vaguei aflito pelos cômodos da casa como quem desperta e não se lembra o que sonhou. não conseguia lembrar nem se tinha sonhado algum dia. já ouvi dizer que os sonhos são como pontes entre os dias. e hoje como não me lembrava do que havia sonhado me sentia preso em mim mesmo dentro de hoje. a memória não conseguia percorrer pela ponte. e assim sem poder atravessar os dias não consegui lembrar.o grande mistério da vida parecia ter se banalizado numa via de mão única. nada do que havia aqui tinha origem. tudo apontava para o acontecimento presente que ia e ia se estendia mais um pouco e ia mais adiante até o futuro. mas como ir sem saber de onde? não entendia o porquê. mas não consegui tirar os olhos daquela parede. aquelas fotos sorrindo pareciam testemunhar algo. um som de ferugem arranhava meus ouvidos. mas não sabia se vinham de onde ou de lugar nenhum. e um adeus entalado no pescoço não quereria dizer nada. ele se acostumará logo. penso que seria uma questão de tempo até me acostumar com isso. essa sensação de estar sozinho no tempo. sozinho comigo mesmo. por onde eu passava me observava como se estivesse atado na sombra dos meus pés. quando se fechava a porta do quarto lá estava eu cerrado à mim mesmo. não podia me sentir tão só do que acompanhando alguém como eu. mal lembrava de onde me conhecia. sei que estive lá e aqui desde que me percebi. ontem chorei de saudades dele. por instantes o rangido enferrujado do portão parou. e o silêncio me entristeceu amargamente ameaçando minha higiene mental.
havia uma possibilidade de passar por aquilo sem desequilíbrios. era só me sujeitar ao tempo e a sua corja de agiotas e cafetões. mas há misérias sob as quais nossos olhos pousam no início pela vocação em admirar o terrível e o belo. depois passa-se a crer possível uma mudança entre o observador e o objeto observado. era por certo bela a tentação a de me perder dentro de mim mesmo para nunca mais. e era terrível perceber que cabia a mim escolher entre as maravilhas do mundo subterrâneo e as contradições de uma vida exemplar e controlável. o portão voltava repentinamente seus gemidos aos ouvidos. e isso me acalmava. meu equilíbrio dependia disso. um ranger metálico que harmonizava os sorrisos fotográficos naquela pedra.
e lá estavam todos os dentes. os olhos semicerrados. o tempo estancado numa moldura fora de época. e a pergunta inevitável. à quem pertenciam.
IV
Olho pela fresta da janela e acuso a mim mesmo de ter deixado de habitar o estranho mundo das coisas lá fora. mas quando vejo a massa bípede de homens e mulheres calçando grossas camadas de vícios e virtudes penso que a melhor maneira de manter intacta a imagem de mim mesmo é ficar aqui. me recolher sob o som imemorável da ferrugem. e resistir as últimas degradações da memória. ao menos não me esqueceria de mim mesmo abandonando-me as ações frívolas dos que se ocupam em se ocupar com as coisas do mundo. decidi que o portão rangendo os dentes era como o meu próprio nome. impossível de esquecer. meu corpo era o templo intacto da pedra diante de mim sustentando sorrisos que não me pertenciam. e assim corpo e nome mantinham minha identidade. prova última da minha existência. todo o resto já tinha se esvaído. em mim apenas o esforço em não viver experiência alguma. apenas a atitude esmagadora de negar os pensamentos que pudessem me preencher com novas lembranças. agora faltava pouco. sim. logo nos reencontraríamos. assim não deixaria de existir. já que tudo já havia sido esquecido.havia cantigas da infância que me visitavam com certa freqüencia. eram elas aquelas melodias assassinas cheias de imagens que me queriam pra si. me queriam levar a um lugar que eu não queria ser levado. queriam habitar o meu tempo meu pensamento minha memória. queriam me separar do meu corpo. era um rítmo impiedoso de ciranda que ameaçava os rangidos enferrujados da lembrança. corri desesperado em fuga pelo corredor onde o portão enferrujava e abraçado às suas lanças chorei feito menino. empurrei-o num movimento contínuo ouvindo-o falar o meu nome. rangia feliz. era o meu nome. eu sou este som rangido. a infância não levaria o meu nome. ela me queria portão à fora em direção aos jardins das infâncias mortas para cavalgar comigo nos antigos carrosséis da memória. voltei ofegante onde os sorrisos me pregavam o corpo com medo que a ciranda os tivesse levado. e lá estavam. a pedra na memória. sorrindo. sempre. por um descuido poderia esquecer-me ali. precisava me manter atento. pendurado na pedra fria. e deixando de escutar o ferro espremido deixaria de me lembrar. era preciso manter-me intacto na memória das coisas. expulsar qualquer pensamento ou coisa que me impedisse de ouvir e ver o que eu era agora. jamais alguém conseguiu permanecer no tempo presente por tanto tempo quanto eu permanecia. as coisas ali não eram esquecidas. não eram lembradas mas não importavam tampouco. era ali que eu sentia que devia permanecer por tempo interminado. era dali que era necessário continuar. ali me guardava em memória. quantas coisas novas ele viveu. que um dia ela se lembre de mim.
V
Antes do fim deste dia eu teria mil motivos pra jurar que nunca tinha estado ali antes. nem mesmo um pensamento sobre mim ou sobre o mundo poderia me acusar de tê-lo imaginado. eu deixaria de existir no mesmo instante em que provasse isso para mim mesmo. já havia me convencido que antes de hoje não houve nada. é inevitável voltar. ocupar o que me falta. mas também não pertenço mais ao meu próprio passado. já não podia lutar contra os novos pensamentos. não conseguia manter o tempo ao lado da parede sorrindo ferrugens e inventando memórias. os dias acusavam o esquecimento. a morte das coisas. há novas coisas pra guardar na lembrança. só assim. pregaria minhas recordações ao lado daquele quadro de imagens alegres. e a lembrança sonora ficaria em mim. para sempre intacta. ele ficará mais contente que eu. algo meu ficou lá longe. entre uma despedida e outra. preguei-me na memória imortal. o silêncio tomou conta de tudo. as cores embranqueceram aos poucos toda a textura da casa. e o calor do corpo rompia as frestas da janela e me esfriava prazerosamente. senti-me pela última vez com os olhos gelados. um rangido no portão. ainda dorme? olho para as janelas cerradas. um último ruído. o som enferrujado da despedida. é real. a porta se abre. seus olhos se fechavam pra sempre. uma voz dizia. eu não o culpo. despedir dói. ele não vai lembrar. mas vai doer.
21.9.10
de bóis ar in lóv
Pelo sempre
no tempo: à bala – ice kiss
(coitados são previstos em contos além da lenda)
numa canção - Orfeu além da morte
''eeu
eurídice
e
eu''
descidos
além do
que previa
o tempo
em versos de ofídio: não havia Verona nem
pentâmetro iâmbico -
catástrofe no diário de elizabeth!
na estrofe um trote do balança-lança - coito contínuo
p o s t m o r t e m
nem além
Eurídice-animal-doméstico.
Eurídice-saco-de-carne.
Eurídice-cousa-sagrada.
Euricida-de-amar-a-quem-lhe-parecer-melhor-quando-e-onde-quiser.
Eudisse: propriedade-minha
é manifestação infestiva do amor eterno – para ser claro
basta ser obscuro
19.9.10
de Tarde
datilograficamente desperto de tudo o que foi dito até mesmo do silêncio e seu sotaque em si bemol às vezes quente às vezes frio tão incontínuo quanto a palavra que acende a fragilidade de um exoesqueleto ou da faculdade artística de uma pequena besta que faz formas como do barro que deus fez
18.9.10
de 'Caderno Espanhol'
Estão crescendo pêlos por toda a parte da casa. As paredes estão ficando cada vez mais sedutoras de se escorar. Sinto falta de rever os amigos... No entanto esta parede está muito mais confortável. E há uma janela. Como os olhos de um gato em que eu estivessse vivendo - sobrevivido morador das suas vísceras felinas... Quando a casa ronrona sei que algo em mim também está se movendo. Passei a procurar a Beleza tarde demais. Morreu na última peste. Junto com os ratos. Está aqui, ao meu lado, entre o cadáver de um rato e uma bola de pêlo neste intestino acidamente domesticado, e... algo dentro de mim está se movendo. Possui a fúria e a força de um titã, mas se comporta feito uma ninfa num vulcão em erupção... E a Beleza aqui morta ao meu lado começa a feder...
de 'ALAS, POOR MERCUCIO!'
Cena IV –
AS RUAS ERAM MEU REFÚGIO. Nas cascatas de pedras onde são fabricadas toda a escória e toda a sujeira da cidade; no transatlântico pacífico da nevrose moderna com suas pequenas balsas; no esteio apático de intelectos sociais cheios das suas fingiduras abotoadas em botons comendo croutons e rimando cu com frisson; no belisco das sandálias que se regalam em amordaçar de fininho um bocado da nossa atenção só pra ter do que invejar às amigas; na violência dos desencontros casuais, nos violentos encontros de casais, alí, nos pés da civilização, um calcanhar agonizante de um homem despido de sí, imerso na infusão dos versos, na inversão dos fusos... e, parece que eu estou falando nada sobre nada... mas, se não era essa a boa desculpa atirada pelas janelas civilizadas de vitraizinhos amarelados, aqueles de aquarela vagabunda, então, eu não sei o que é... NENHUM HOMEM PODE COMPREENDER O ENCANTO DAS RUAS ATÉ SER OBRIGADO A PROCURAR REFÚGIO NELAS, ATÉ TER SE TORNADO UMA PALHA JOGADA PRA CÁ E PRA LÁ PELO PRÓPRIO ZÉFIRO QUE SOPRA.
Eu quando era apenas um menino já levava pra casa seqüelas de querelas indesejáveis.
Queria uma barba como a de Eros, mas o mais perto que cheguei disso foi um beiço agudo de fauno assobiando no cu de mal-me-quer; deixei que ela crescesse como quisesse, com sotaque de alga marinha, deslizando pelos contornos do meu rosto impurezas de fermento e sal; cada pêlo se sobrepunha sobre o outro; crescia desde o meu intestino, passando pelos pulmões, pelo coração, abrindo caminho na pele, emaranhando-se e apanhando carona numa curva anterior, até enfim atingir enigmáticas sucessões de formas como dobras, falhas, erosões, vulcões, terremotos... fiquei com a aparência titânica dos pré-diluvianos – péssimo pra pedir emprestado. Mas os amigos, os judeus, principalmente, não negam jamais uma ajudazinha – sei que na maioria das vezes é pra não ter que suportar a minha presença muito mais tempo do que dura uma xícara de café. Mas acho também que depois daquela coisa histórica, eles não querem inimizades com niguém de muito brio, afinal... ninguém sabe que tipo de homem a gente pode se tornar... Apesar desses amigos evitarem esses encontros, evitando passar por ruas por onde costumava flanar, eu sabia onde procurar
en la rue des passants.... onde às vezes eu me encontro estacado no chão, encostado numa parede turva esperando o quinhão do dia: e, então, eis que a minha frente surge como de uma noite mal dormida, um exército de combatentes da segunda ordem, marchando sem freios, escorrendo pelas frestas, acotovelando-se, emitindo um calor animal por todas as direções, sem comando, praguejando seu hálito fétido pelas esquinas, com todo o arrojo civilista daqueles latins: “non ducor, duco”, e como estúpidos rebentos da modernidade resgatam a alcunha da cidade: A Capital da Cobiça; e lá vão eles!, os operários do progresso!, os piolhos da atividade!... e entre esta paisagem e outras, entre a fé e a medida de cada homem, ante a miséria de cada oportunidade que o corpo oferece, seja por fome ou por falta de algum êxtase, entre todas essas coisas que fazem com que se perceba que a humanidade está supurada demais para que o homem possa florescer...
LADO A LADO COM A ESPPÉCIE HUMANA CORRE OUTRA RAÇA DE SÊRES, INCITADOS POR DESCONHECIDOS IMPULSOS, TOMAM A MASSA SEM VIDA QUE É A HUMANIDADE E, PELA FEBRE E PELO FERMENTO, TRANSFORMAM ESTA MASSA ÚMIDA EM PÃO, E O PÃO EM VINHO, E O VINHO EM CANÇÃO. E DO COMPOSTO MORTO E DA ESCÓRIA CRIAM UMA CANÇÃO QUE CONTAGIA. VEJO ESTA RAÇA VIRANDO TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO, OS PÉS SEMPRE SE MOVENDO EM SANGUE E LÁGRIMAS , AS MÃOS SEMPRE VAZIAS, SEMPRE SE ESTENDENDO NA TENTATIVA DE AGARRAR O DEUS INATINGÍVEL: MATANDO TUDO AO SEU ALCANCE A FIM DE ACALMAR O MONSTRO QUE LHE RÓI AS ENTRANHAS...
17.9.10
para M.
talvez se imerso na fonte mais profunda do gozo
caminho de unhas silvestres
platô do desmedido encontro entre a saliva breve
e o olho durad´ouro
saberei cicatrizar?
talvez se não sangrasse a caminho da profundidade
onde há desvios de uvas
calma distraída que alcança mordida na boca
e a pele - sem resposta
não saberei cicatrizar?
caminho de unhas silvestres
platô do desmedido encontro entre a saliva breve
e o olho durad´ouro
saberei cicatrizar?
talvez se não sangrasse a caminho da profundidade
onde há desvios de uvas
calma distraída que alcança mordida na boca
e a pele - sem resposta
não saberei cicatrizar?
de Noite
Não tenho um corpete pra vestir. Não tenho um corpete pra vestir essa noite. Não tenho um corpete pra vestir essa noite de mulher. Não tenho essa noite.
bloco-3
Sim, ventrículo direito, eu sei que às vezes você se esconde muito bem e vai sempre aonde quer ir e é levado no braço pelos amiguinhos heróicos das histórias gregas, onde pálapos era amigo do antiquíssimo senhor de alfafas, pois é, pequenino indomesticável, se você me alcançar com sua trupezinha de alphasbetasgamas eu cozinharei vocês na minha própria pia-máter e servirei p'ras galinhas no alvorecer.
de 'Caderno Espanhol'
Eu hoje poderia esculpir de uma só vez o Homem. Com essência e cheiro! Como um deus. Poderia fazer germinar-lhe pêlos ou então ensinar-lhe a dançar... E então, quando este homem estivesse pronto para amar a vida, arrancaria-lhe os braços e o faria sofrer. É preciso estar pronto para ser esquartejado todos os dias.
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